Segundo o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, uma das mudanças mais relevantes observadas no envelhecimento da população brasileira é a crescente necessidade de olhar para a saúde do idoso além do tratamento de doenças específicas. Em um país que envelhece rapidamente, o desafio deixou de ser apenas aumentar a expectativa de vida e passou a incluir a preservação da autonomia, da funcionalidade e da qualidade de vida ao longo dos anos.
Os números ajudam a explicar essa transformação. O Brasil já possui mais de 35 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, e as projeções indicam que essa parcela continuará crescendo nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, aumenta a incidência de condições crônicas como hipertensão, diabetes, osteoporose, doenças neurodegenerativas e transtornos relacionados à saúde mental. Nesse cenário, cresce também a percepção de que consultas isoladas e tratamentos fragmentados nem sempre conseguem responder às necessidades reais dessa população.
Por que tratar apenas a doença já não é suficiente?
Durante muitos anos, a assistência médica foi estruturada para responder a problemas específicos. O paciente apresentava um sintoma, recebia um diagnóstico e iniciava um tratamento direcionado. Embora essa lógica continue importante, ela se mostra limitada quando aplicada ao envelhecimento, que envolve múltiplos fatores físicos, emocionais, sociais e cognitivos.
Uma pessoa idosa pode conviver simultaneamente com diferentes condições de saúde, utilizar diversos medicamentos e enfrentar desafios relacionados à mobilidade, alimentação, memória ou interação social. Nesse contexto, tratar apenas uma doença não significa necessariamente melhorar sua qualidade de vida. Yuri Silva Portela ressalta que compreender o indivíduo de forma integral tornou-se uma necessidade cada vez mais evidente dentro da geriatria contemporânea.
O avanço das equipes multidisciplinares na saúde do idoso
Nos últimos anos, hospitais, clínicas e centros especializados passaram a investir em equipes compostas por médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e assistentes sociais. O objetivo é construir estratégias conjuntas que considerem diferentes aspectos do envelhecimento.
Essa abordagem tem ganhado força porque muitos problemas enfrentados pelos idosos possuem causas multifatoriais. Uma queda, por exemplo, pode estar relacionada à perda muscular, ao uso inadequado de medicamentos, à deficiência nutricional ou até mesmo a alterações cognitivas. Sob essa ótica, a atuação integrada dos profissionais permite identificar riscos que poderiam passar despercebidos em avaliações isoladas.
A saúde mental entrou definitivamente na pauta do envelhecimento
Se antes as discussões sobre a terceira idade eram concentradas em doenças físicas, hoje a saúde mental ocupa um espaço cada vez mais relevante. O aumento da longevidade trouxe novos desafios relacionados à solidão, depressão, ansiedade e declínio cognitivo.
Diversos estudos mostram que o isolamento social pode impactar significativamente a saúde geral dos idosos, influenciando inclusive indicadores físicos. Nesse sentido, o trabalho conjunto entre profissionais da saúde mental e demais especialistas tem sido apontado como um diferencial importante para promover bem-estar e preservar a independência funcional por mais tempo.

Na visão do doutor Yuri Silva Portela, a integração entre diferentes áreas permite identificar precocemente sinais que muitas vezes são interpretados como consequências naturais da idade, mas que podem indicar condições tratáveis e passíveis de acompanhamento adequado.
Tecnologia e monitoramento ampliam o alcance do cuidado
Outra transformação observada recentemente envolve o uso crescente de tecnologias voltadas ao acompanhamento da população idosa. Ferramentas de telemedicina, dispositivos de monitoramento remoto e aplicativos de gestão da saúde passaram a fazer parte da rotina de muitos pacientes.
Esses recursos não substituem o contato humano nem a avaliação presencial quando necessária, mas contribuem para ampliar o acompanhamento contínuo. Além disso, permitem que diferentes profissionais compartilhem informações com mais facilidade, favorecendo uma tomada de decisão mais integrada.
O doutor Yuri Silva Portela expressa que a combinação entre tecnologia e atendimento multidisciplinar tende a desempenhar um papel cada vez mais importante diante do envelhecimento acelerado da população brasileira. A tendência é que soluções digitais sejam incorporadas de maneira complementar aos modelos tradicionais de cuidado.
O papel da família na construção da longevidade saudável
Embora o avanço das equipes multidisciplinares represente uma mudança significativa, o envolvimento familiar continua sendo um elemento essencial. O envelhecimento acontece dentro de contextos sociais específicos, e a participação de familiares ou cuidadores influencia diretamente a adesão aos tratamentos e a manutenção de hábitos saudáveis.
Quando existe comunicação entre profissionais, pacientes e familiares, torna-se mais fácil identificar necessidades, estabelecer objetivos realistas e acompanhar resultados. Essa rede de apoio contribui para reduzir internações evitáveis e melhorar a experiência do envelhecimento.
Da mesma forma, cresce a percepção de que o cuidado não deve começar apenas quando surgem limitações importantes. Estratégias preventivas adotadas ao longo da vida podem gerar impactos positivos duradouros na saúde e na funcionalidade dos indivíduos.
O futuro da longevidade passa pela integração
Logo que o Brasil se aproxima de uma nova configuração demográfica, cresce a necessidade de repensar modelos assistenciais construídos para uma realidade muito diferente da atual. O envelhecimento populacional exige respostas que ultrapassem fronteiras entre especialidades e promovam uma visão mais ampla da saúde.
Nesse contexto, o atendimento multidisciplinar surge não apenas como uma tendência, mas como uma adaptação necessária às demandas de uma sociedade cada vez mais longeva. Para o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, o grande desafio das próximas décadas será transformar conhecimento técnico e integração profissional em ganhos concretos de autonomia, bem-estar e qualidade de vida para milhões de brasileiros que estão vivendo mais e desejam viver melhor.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

