Programa reúne jardins de chuva, corredores ecológicos e parceria internacional para reduzir alagamentos e amenizar ilhas de calor na cidade.
Belo Horizonte deu um passo concreto na sua agenda de adaptação climática com o lançamento oficial do programa BH Cidade Viva, batizado de “A natureza protegendo o nosso futuro”. A cerimônia aconteceu no Auditório JK da Prefeitura, reunindo o prefeito Álvaro Damião, o secretário municipal de Política Urbana, Leonardo Castro, e representantes de organizações internacionais parceiras da iniciativa, como o C40 Cities Finance Facility e a Agência Alemã de Cooperação Internacional, além de representantes diplomáticos do Reino Unido e da Alemanha. Durante o evento, foi assinado o decreto que institui formalmente o programa, junto com um memorando de entendimento que já garantiu à capital mineira mais de R$ 15 milhões para estudos, projetos e modelagens técnicas.
Para quem mora em Belo Horizonte e já perdeu as contas de quantas vezes viu uma rua alagar depois de uma chuva forte, a pergunta mais natural é entender, na prática, o que muda com esse anúncio. A resposta da prefeitura passa por uma mudança de estratégia: em vez de apostar apenas em obras tradicionais de drenagem, como galerias e bueiros maiores, o programa quer devolver parte do solo da cidade à natureza, criando estruturas capazes de absorver a água da chuva antes que ela desça, em disparada, para os córregos e rios da capital.
O que muda no dia a dia dos bairros com o novo programa
A ideia central do BH Cidade Viva é o que o próprio prefeito Álvaro Damião chamou de “desconcretar” a cidade. Segundo ele, Belo Horizonte recebeu, ao longo dos anos, grandes volumes de concreto em áreas que poderiam ter permanecido com terra, grama ou vegetação, o que hoje agrava tanto os alagamentos quanto as chamadas ilhas de calor, regiões da cidade onde a temperatura fica sensivelmente mais alta por causa do excesso de superfícies impermeáveis. A prefeitura afirma estar mapeando esses pontos para substituir progressivamente o concreto por soluções vegetais, que funcionam como uma esponja natural durante períodos de chuva intensa.
Na prática, o programa prevê a implantação de mais de 37 mil metros quadrados de estruturas que armazenam e infiltram a água da chuva no solo, reduzindo a sobrecarga do sistema tradicional de drenagem. Também estão previstos corredores ecológicos, parques ciliares, sistemas sustentáveis de captação de água em escolas e unidades de saúde, além da recuperação de nascentes e a criação de rotas mais confortáveis para pedestres e ciclistas em diferentes regiões da capital. Uma das novidades mais específicas do pacote é a implantação de dois campos de futebol hídricos, projetados especificamente para absorver água de chuva e reduzir o escoamento superficial em bairros historicamente afetados por enchentes.
A subsecretária de Planejamento Urbano da PBH, Renata Herculano, resumiu o raciocínio por trás da mudança de abordagem ao lembrar que, quando chove muito na cidade, a água desce rápido e arrasta tudo que encontra pelo caminho, enquanto em dias de calor extremo a população busca sombra e lugares mais frescos, dois problemas que o programa tenta atacar ao mesmo tempo com soluções baseadas na natureza.
Venda Nova recebe a primeira entrega do programa
O lançamento do BH Cidade Viva não ficou apenas no papel. Na mesma tarde da cerimônia, a Prefeitura inaugurou o primeiro jardim de chuva do programa, instalado na Escola Municipal Professor Moacyr Andrade, em Venda Nova, região que convive há anos com alagamentos recorrentes em períodos de chuva forte. A estrutura foi desenvolvida de forma colaborativa por estudantes, pesquisadores e técnicos da própria prefeitura, funcionando como uma espécie de esponja que retarda a chegada da água até o sistema de drenagem e os córregos da região.
Segundo o secretário municipal de Política Urbana, Leonardo Castro, os jardins de chuva podem ser instalados tanto no pavimento da via quanto na calçada, e o princípio é sempre o mesmo: em vez de a água escoar diretamente para as galerias pluviais e chegar rápido demais aos córregos, ela passa a infiltrar aos poucos no solo, aliviando o sistema de drenagem em momentos críticos. O espaço em Venda Nova também vai funcionar como um laboratório a céu aberto, com monitoramento da qualidade da água e da biodiversidade local, contando com apoio técnico do Instituto Federal de Minas Gerais, campus Santa Luzia, e participação de estudantes internacionais do Programa Delfín, uma iniciativa de intercâmbio científico entre instituições da América Latina.
Depois da inauguração, a equipe da prefeitura fez uma visita técnica à sub-bacia dos córregos Capão e Piratininga, também em Venda Nova, região apontada como prioritária para receber novas intervenções do programa nos próximos meses. A escolha de começar por esse território não é aleatória: moradores da região relatam há anos episódios de enchentes que danificam casas, comércios e vias públicas sempre que o volume de chuva ultrapassa a capacidade do sistema de drenagem convencional instalado no bairro.
Como a parceria internacional viabiliza as próximas etapas
O financiamento inicial do programa vem de uma cooperação internacional que reúne o Cities Finance Facility, a Agência Alemã de Cooperação Internacional e o governo do Reino Unido, uma articulação pensada para ajudar cidades de países em desenvolvimento a captar recursos voltados à mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Os mais de R$ 15 milhões já garantidos por essa parceria serão usados, por enquanto, para financiar estudos, projetos e modelagens técnicas que vão orientar onde e como cada nova intervenção deve ser construída, etapa considerada essencial antes de qualquer obra de maior porte começar a sair do papel.
Esse modelo de financiamento também sinaliza que o BH Cidade Viva não deve se limitar a uma ação pontual, mas funcionar como um guarda-chuva para outras iniciativas municipais de infraestrutura verde que já vinham sendo tocadas de forma mais isolada, como a construção de bacias de contenção em regiões de risco de enchente na Grande BH. A ideia da prefeitura é que, com o passar dos meses, esse conjunto de ações passe a ser percebido pela população não como obras separadas, mas como parte de uma mesma estratégia de longo prazo para tornar Belo Horizonte mais resiliente a chuvas intensas e ondas de calor cada vez mais frequentes.
Para os moradores de bairros historicamente afetados por alagamentos, a expectativa agora é acompanhar se as próximas etapas do programa, incluindo os corredores ecológicos e os parques ciliares prometidos, de fato chegam às regiões mais vulneráveis dentro do cronograma anunciado pela prefeitura. A administração municipal afirma que a participação de moradores, escolas e universidades será incentivada ao longo da implementação, o que sugere que novos pontos de intervenção poderão ser definidos também a partir de demandas apresentadas pela própria comunidade nos bairros prioritários.
Com o decreto assinado e a primeira estrutura já entregue em Venda Nova, o BH Cidade Viva entra agora na fase de expansão, quando a prefeitura precisará mostrar, na prática, se consegue transformar em obras concretas o discurso de “desconcretar” a capital mineira. Para uma cidade que combina relevo acidentado, ocupação urbana intensa e um histórico recorrente de enchentes em períodos chuvosos, o programa representa uma aposta em soluções mais baratas e naturais como complemento às obras tradicionais de drenagem, com Venda Nova servindo de vitrine inicial para o que a gestão municipal promete estender a outras regiões da capital nos próximos anos.
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