Uma proposta tecnicamente impecável pode ser rejeitada numa reunião de diretoria simplesmente porque ninguém entendeu o que estava sendo pedido, e Murilo Moura Alencar, board member e Tech, People & Game Strategist, frisa que esse é um dos pontos mais frágeis na relação entre áreas de tecnologia e a alta gestão. Apresentações cheias de siglas, arquiteturas e detalhes de implementação costumam gerar mais dúvidas do que decisões, e projetos importantes acabam adiados por falta de clareza.
Comunicar bem com conselhos e diretorias é uma habilidade que pode ser aprendida, e seu efeito vai além da aprovação de projetos: melhora a confiança entre as áreas. A seguir, quatro passos que ajudam a transformar uma proposta técnica numa decisão clara.
Comece pela decisão que você precisa
Conselheiros e diretores costumam ter pouco tempo e muitos assuntos diferentes na pauta de cada reunião. Murilo Alencar assinala que, se a decisão pedida só aparece no último slide, boa parte da atenção já se perdeu no caminho.
A recomendação é inverter a ordem habitual: abrir com o que se espera do grupo, seja aprovar um investimento, escolher entre alternativas ou apenas tomar conhecimento de um risco. Com isso claro desde o início, todo o restante da apresentação passa a ser lido como argumento para essa decisão, e não como uma aula de tecnologia.
Traduza tecnologia em impacto de negócio
Termos como migração de infraestrutura ou refatoração de sistemas dizem pouco a quem não é da área. Tempo de lançamento de produtos, risco de interrupção do serviço, custo por cliente e exposição a incidentes dizem muito mais.
Murilo Alencar ressalta que a tradução não significa simplificar demais nem esconder complexidade. Significa conectar cada escolha técnica a uma consequência que a diretoria reconhece como relevante. Uma boa pergunta de teste é: se esta proposta não for aprovada, o que acontece com o negócio nos próximos doze meses?
Escreva antes de apresentar
Na Amazon, reuniões importantes começam com a leitura silenciosa de um memorando de até seis páginas, prática adotada depois que Jeff Bezos restringiu o uso de apresentações em slides em reuniões executivas. A justificativa é que texto corrido obriga quem escreve a organizar o raciocínio e permite que todos discutam a partir da mesma base.
Mesmo sem adotar o modelo completo, escrever um documento curto antes da reunião ajuda. Ele força a clareza, revela lacunas no argumento e dá aos participantes a chance de chegar preparados, com perguntas melhores. A reunião deixa de ser exposição e passa a ser discussão.
Mostre opções, riscos e o que você não sabe
Apresentar uma única alternativa como se fosse inevitável costuma gerar desconfiança. Diretorias tomam decisões melhores quando enxergam as opções disponíveis, os custos e riscos de cada uma e a recomendação da equipe técnica com sua justificativa.
Na visão de Murilo Moura Alencar, admitir incertezas também fortalece a credibilidade. Dizer com clareza o que ainda não se sabe e como a equipe pretende descobrir transmite mais segurança do que projeções otimistas que depois não se confirmam. Propor marcos de reavaliação, em que a decisão pode ser revista com novas informações, reduz a resistência a projetos de maior incerteza.
Tecnologia também é assunto de estratégia
Murilo Moura Alencar conclui que, à medida que a tecnologia se torna central em praticamente todos os negócios, a capacidade de comunicá-la com clareza deixa de ser um diferencial e passa a ser uma exigência para líderes técnicos.
Profissionais que dominam essa habilidade conseguem aprovar projetos importantes, alinhar expectativas e construir confiança com a alta gestão. Mais do que conhecer bem a tecnologia, eles sabem explicar por que ela importa, e é justamente isso que transforma uma boa ideia técnica numa decisão de negócio bem tomada.

