Projeto da Viridis prevê centro de pesquisa e planta-piloto para desenvolver tecnologias de processamento de minerais estratégicos usados em veículos elétricos e energia limpa.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou um financiamento de R$ 77,5 milhões para a Viridis Mineração implantar o Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras (CPTR), em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais. O investimento coloca o município no centro de uma estratégia voltada ao desenvolvimento de tecnologias para minerais considerados essenciais à transição energética e à indústria de alta tecnologia.
Os recursos serão fornecidos pelo programa BNDES Mais Inovação e apoiarão a produção, em escala piloto, de carbonato misto de terras raras. O centro também deverá desenvolver técnicas metalúrgicas específicas e aprimorar rotas para processamento das argilas iônicas encontradas na região de Poços de Caldas.
O CPTR representa a primeira etapa do Projeto Colossus, empreendimento desenvolvido pela Viridis Mineração. A planta-piloto será utilizada para testar e validar processos antes da implantação da futura unidade industrial, reduzindo riscos tecnológicos e permitindo ajustes antes da produção em maior escala.
O projeto ganha relevância em um momento de crescente disputa internacional por minerais críticos. Elementos de terras raras são utilizados na produção de componentes para veículos elétricos, geração de energia renovável, equipamentos médicos e eletrônicos de precisão, tornando a capacidade de processá-los uma questão econômica e tecnológica estratégica.
O que será construído em Poços de Caldas?
O financiamento permitirá avançar com o Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras. A estrutura funcionará como espaço para pesquisa aplicada e validação de tecnologias destinadas ao aproveitamento dos depósitos existentes na região.
Uma das principais funções será produzir carbonato misto de terras raras em escala piloto. Trata-se de um produto intermediário obtido durante o processamento dos minerais e que posteriormente pode avançar por outras etapas de separação e refino para atender diferentes aplicações industriais.
O centro também trabalhará no desenvolvimento de técnicas metalúrgicas e na otimização do processamento de argilas iônicas. Nesses depósitos, os elementos de terras raras ficam associados às argilas de uma maneira que permite utilizar rotas específicas para sua recuperação.
A planta-piloto terá ainda uma função decisiva para o Projeto Colossus: reproduzir, em menor escala, as condições esperadas para a futura instalação industrial. Isso permitirá verificar eficiência, custos e desempenho dos processos antes que a empresa avance para uma operação comercial muito maior.
Por que as terras raras são tão importantes para a tecnologia?
Apesar do nome, as terras raras formam um grupo de elementos químicos encontrados em diferentes regiões do planeta. O desafio está principalmente em localizar depósitos economicamente viáveis e desenvolver tecnologias capazes de separar, processar e refinar esses elementos de maneira eficiente.
Entre suas aplicações mais estratégicas estão os ímãs permanentes de alto desempenho. Eles são utilizados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, sistemas industriais e diversas tecnologias avançadas.
Elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio possuem importância particular para esse mercado. A área do Projeto Colossus, segundo a Viridis, apresenta ocorrência de terras raras pesadas e é considerada pela companhia um depósito promissor de argilas iônicas fora da Ásia.
Por esse motivo, o projeto mineiro ultrapassa a mineração convencional. O objetivo é desenvolver conhecimento tecnológico para que parte do processamento também seja realizada no Brasil, aumentando o valor agregado da produção e reduzindo uma possível dependência de cadeias externas.
Por que Poços de Caldas está no centro do projeto?
A região de Poços de Caldas reúne características geológicas que despertaram interesse crescente na exploração de minerais estratégicos. A Viridis Mineração detém os direitos de pesquisa e lavra relacionados ao Projeto Colossus IAC na região.
O projeto está associado a depósitos de argilas iônicas, uma fonte particularmente relevante para determinados elementos de terras raras. A companhia considera a área uma das ocorrências mais promissoras desse tipo fora da Ásia, tanto pela concentração de elementos quanto pela possibilidade técnica de processamento.
A presença do centro de pesquisa também pode fortalecer um ecossistema tecnológico regional. Além das atividades diretamente relacionadas à mineração, uma operação desse porte demanda serviços de engenharia, laboratórios, fornecedores industriais, profissionais especializados e desenvolvimento de processos.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que o investimento possui potencial para apoiar o ecossistema de inovação em Poços de Caldas, estimular uma cadeia nacional de fornecedores e favorecer a geração de empregos qualificados.
Projeto Colossus prevê avanço para escala industrial
O Centro de Pesquisa e Processamento é apenas uma das etapas do Projeto Colossus. A planta-piloto deverá fornecer dados e validações técnicas necessários para preparar a implantação da futura unidade industrial.
Segundo as informações divulgadas sobre o empreendimento, a implantação da planta industrial está prevista para começar no primeiro trimestre de 2027, enquanto a entrada em operação é projetada para o fim de 2028. O cronograma ainda envolve etapas de financiamento, desenvolvimento tecnológico e execução da estrutura industrial.
A linha de crédito aprovada pelo BNDES possui prazo de 16 anos e custo indicativo informado de aproximadamente 4,8% ao ano. A empresa também informou ter captado US$ 154 milhões em recursos de capital próprio enquanto trabalha na estruturação do restante do financiamento necessário ao Projeto Colossus.
A Viridis havia sido selecionada em uma chamada pública do BNDES e da Finep voltada a projetos relacionados à cadeia de minerais estratégicos para transição energética e descarbonização. A aprovação dos R$ 77,5 milhões transforma parte desse apoio em financiamento diretamente ligado ao desenvolvimento do centro tecnológico mineiro.
Minas pode ganhar espaço na cadeia global de minerais críticos
O investimento acontece em um momento em que o Brasil busca transformar suas reservas minerais em uma cadeia de maior valor tecnológico. O país possui uma das maiores reservas mundiais de terras raras, mas ainda responde por uma parcela pequena da produção e, sobretudo, do processamento global.
Essa diferença é importante porque extrair o mineral representa apenas uma parte da cadeia. Separação, processamento, refino e transformação em componentes industriais são etapas que concentram conhecimento tecnológico e maior valor econômico.
O Congresso aprovou recentemente a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que busca estimular pesquisa, produção, beneficiamento e industrialização desses recursos. O projeto aguarda sanção presidencial e aparece em um momento de maior interesse internacional por lítio, níquel, grafita, cobre e elementos de terras raras.
Nesse cenário, Poços de Caldas pode ganhar importância não apenas como região produtora, mas também como centro de desenvolvimento de tecnologia mineral. O desafio será transformar o potencial geológico em pesquisa, processamento e produtos capazes de abastecer cadeias industriais mais sofisticadas.
Investimento aproxima mineração, tecnologia e transição energética
O financiamento do BNDES mostra como a mineração de minerais críticos está cada vez mais conectada ao setor tecnológico. Terras raras estão presentes em algumas das cadeias industriais consideradas essenciais para eletrificação dos transportes, expansão das energias renováveis e desenvolvimento de equipamentos eletrônicos avançados.
Para Minas Gerais, o projeto representa uma oportunidade de combinar sua tradicional atividade mineral com pesquisa e inovação. A criação de uma planta-piloto permite que tecnologias sejam desenvolvidas e validadas dentro do próprio estado antes de uma eventual expansão industrial.
O impacto econômico dependerá da execução do Projeto Colossus e da capacidade de construir uma cadeia de fornecedores e processamento no país. A experiência internacional mostra que possuir reservas minerais, isoladamente, não garante liderança tecnológica; dominar as etapas posteriores da cadeia é um fator igualmente importante.
Com R$ 77,5 milhões em financiamento aprovado, Poços de Caldas passa a ocupar uma posição relevante nessa tentativa. Se o cronograma avançar como previsto, o centro tecnológico será uma das etapas para transformar depósitos mineiros de terras raras em conhecimento, processamento industrial e insumos destinados às tecnologias da transição energética.
Fontes: Reuters/UOL — BNDES aprova R$ 77,5 milhões para projeto da Viridis em Poços de Caldas · Folha de S.Paulo — financiamento para o centro de terras raras · Poços Já — detalhes do CPTR e do Projeto Colossus · UOL — política nacional para minerais críticos e estratégicos

